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Persistir na desinformação

Categoria: Uncategorised Publicado em quarta, 05 julho 2017, 22:57

Numa notícia de ontem, creio que publicada nas NOTÍCIAS AO MINUTO – pode não ter sido este o órgão de comunicação social, mas um outro –, podia ler-se esta afirmação, sintetizadora do estudo apresentado publicamente pelo IPMA: meteorologistas dizem que as descargas elétricas só ocorreram depois de o incêndio ter começado.

Ora, o que os meteorologistas disseram foi que desse facto só existem registos, ao nível dos equipamentos disponíveis, depois do incêndio ter começado, o que é muito diferente. Uma situação que me faz repetir aqui uma história simples, passada comigo no meu terceiro ano de Engenharia Civil, quando já trabalhava na extinta Direção-Geral das Construções Escolares.

Em certa data chegou à Direção de Serviços para o Ensino Secundário e Médio, onde estava colocado, um ofício da Direção-Geral dos Serviços de Urbanização, com a finalidade de saber se aquela dispunha de alguma informação relativa a certa escola. O diretor do meu serviço incumbiu-me de lhe propor a resposta ao referido ofício. Bom, consultei o arquivo e, nada tendo encontrado em face de quanto era solicitado, esbocei o referido ofício, nele escrevendo, a dado passo, que nada existe, nesta direção-geral, que se ligue ao solicitado. Pouco depois, chegou a hora de almoço, só regressando pelas duas da tarde.

Uma meia hora depois, lá me voltou a aparecer a secretária do serviço, indicando que o engenheiro Rogério Leão de Almeida me mandara chamar. E lá fui de imediato. Logo que entrado, o diretor do serviço referiu que estava tudo bem, exceto um ponto, mas que era importante: o Hélio diz aqui que nada existe cá sobre este assunto... Tendo dito que sim, porque não existia nada no arquivo, dele ouvi esta explicação: mas não é “não existe”, é “não se encontrou”! E completou: como é que pode ter a certeza de que algo sobre o caso não andará por aí, extraviado? Bom, foi uma lição para vida.

Assim se passa com a explicação dos técnicos do IPMA, de resto já há dias referida pelo académico Miguel Miranda: o facto de não existirem registos, não significa que não tenham ocorrido outros eventos, embora com uma probabilidade baixa, mas não nula. E falou logo na correspondente ordem de grandeza: 5 %.

Mesmo que o leitor seja um jovem universitário, se acaso estudou já a Inferência Estatística, saberá dos Testes de Hipóteses que a dita Hipótese Nula traduz a crença de quem faz o teste. Mesmo assim, assume-se uma probaliddade não nula para o facto de, tomando a mesmo como certa, poder ela estar errada. É o designado nível de significância, ou probilidade do Erro de Tipo I.

O próprio Jaime Marta Soares também já apresentou um seu terceiro modelo explicativo para o facto de poder o incêndio ter-se iniciado à tal hora local, mas por via de um arco voltaico, situação nada impossível, dado passarem ali cabos de transporte de energia elétrica em regime de alta tensão e de média tensão. Com as temperaturas atingidas e com os ventos que se sempre se desenvolvem nos incêndios, essas catenárias ter-se-iam alongado e balançado, podendo tocar-se, ou simplesmente aproximar-se ao ponto de se produzir o tal arco voltaico. Uma situação em que o melhor é estar bem longe dela...

“Não registámos nenhuma descarga [elétrica] à hora do incêndio”. Foi o que exprimiu o IPMA, o que não significa que não existiram outros eventos não detetados que possam ter originado o referido incêndio. Num ápice, porém, a nossa grande comunicação social, de um modo muito geral, de pronto referiu que o IPMA decartou a hipótese de ter o incêndio tido início por via natural...

Significa isto, pois, que estas informações do IPMA em nada contradizem o que foi inicialmente informado pela Polícia Judiciária. Precisamente o que ontem foi referido por Pedro Viterno na SIC Notícias: os métodos da Polícia Judiciária não são os nossos. Por aqui se pode ver que a simples existência de uma democracia formal nada garante em matéria de isenção notiviosa. De resto, há décadas que se sabe disto mesmo e por todo o mundo. Infelizmente, certamente por razões político-partidárias, uma boa parte dos nossos jornalistas faz-se de parvo.