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103 aldeias sem saneamento.

Categoria: Opinioes Publicado em quinta, 10 agosto 2017, 15:17

Entre as muitas funções específicas de uma câmara municipal, no que à satisfação das necessidades primárias das populações diz respeito, contam-se os saneamentos. Não vale a pena defender aqui, tão óbvio que é, a sua utilidade em termos de asseio, de higiene pessoal e comunitária e ainda de impacto positivo no meio ambiente, especialmente na qualidade da água dos aquíferos. No fim de contas, os saneamentos devem ter a mesma atenção que têm o fornecimento de água de qualidade, os arruamentos, a iluminação pública, a recolha e tratamento dos lixos, as escolas e sua proximidade, o planeamento e o cuidado urbanístico, o desenvolvimento sócio-económico em geral… Estas são algumas das principais e inadiáveis funções dos municípios em que não pode haver cedências nem dilações. Observando os concelhos limítrofes, notamos que os saneamentos das aldeias estão praticamente feitos, sendo Montalegre a única excepção.

No caso de Montalegre, há carências em todas as competências atrás referidas, mas o caso mais grave são os saneamentos. Não sei se o amigo leitor sabia que, das 135 aldeias, cerca de 103 não têm saneamento. Quem não acreditar que vá ver. É o caso mais grave de Portugal e, em termos europeus, só comparável às zonas mais pobres da Bulgária. Em Montalegre, a Câmara financia todo o tipo de eventos, de borgas e de investimentos supérfluos e sem retorno para as populações, mas quando se trata de responder ao que é local e essencial, o município falha, falha sempre e redondamente. Em Montalegre há financiamento de corridas de bicicletas, de muitas corridas de trotinetes, carros e camiões, passeios de jipe, clubes de caça e de pesca, financiamento de variadas patuscadas e de associações que desenvolvem atividades supérfluas; a maior fatia do orçamento vai para as obras nulas e que estão a apodrecer: ponte do Assureira, estrada do Larouco, estrada de Chaves, pista de 14 milhões, variante à Vila, central de camionagem, piscina municipal, ETAR, casa do PNPG em Paradela… Com a Sexta 13, dizem que fizeram a maior rambóia de rua de Portugal, onde o município serve gratuitamente bebidas alcoólicas, mesmo a quem não tem idade para as consumir. Tenho razões para presumir que neste momento a Sexta 13 também já é um paraíso do consumo de drogas, muito devido ao disfarce físico que a festa das bruxas e o ambiente noturno permitem.

Na ausência de saneamentos, a primeira consequência é a vulgarização da fossa séptica e suas consequências: além de ser proibida por lei, polui os aquíferos. Todavia, as pessoas não têm alternativa senão passar para a situação de ilegalidade. A segunda consequência é a sujidade que povoa a aldeia e o convívio franco entre pessoas e excrementos, tanto os dos animais domésticos, como os das pessoas. A terceira consequência é que em muitas aldeias a antiga surreira continua a ser um lugar frequentado. Que “riqueza” para o antropólogo, o etnógrafo e para o turista, que dessa forma tem acesso a hábitos e usos já extintos nas outras regiões, mas aqui vulgares e rotineiros; e aquele limpar o rabo com a mão esquerda é uma preciosidade! Que eu saiba, só em Barroso é que existe e no deserto entre os beduínos. A quarta consequência é não haver jovens que queiram fixar-se numa aldeia imunda e sem empregos próximos; e com o fim dos velhos, que arrastam as pernas pelas ruas cheias de ervas, também as aldeias, uma a uma, vão acabando, como recentemente aconteceu com Paio Afonso, e não “Pai Afonso”, como escreve a CMM. 

Em termos de saneamento, vale a pena pôr em confronto o que fez o PSD nos seus três mandatos e sem fundos comunitários e o que fez o PS nos seus sete mandatos e sempre com fundos comunitários. Talvez o amigo leitor não saiba que o PS fez mais saneamentos em número, mas o PSD (apesar de nunca gozar de fundos comunitários e durante muito menos tempo) fê-los para mais população do que o PS. Cito como exemplos, apenas os saneamentos de Montalegre (quase todo), Salto, Vilar de Perdizes, Gralhas, Meixedo…

O Presidente Orlando Alves, durante o seu mandato, apenas fez Vila da Ponte e Morgade. Prometeu fazer o de Parafita, mas à última hora trocou-o pelo da Vila da Ponte, tendo esta manobra sido uma desconsideração e falta de respeito para com as pessoas de Parafita. Mesmo assim é capaz de ganhar aí as eleições se os caciques e trauliteiros do sítio fizerem o seu trabalho.

O caso de Sarraquinhos é paradigmático: havendo um lar na aldeia, que tem mais gente do que a própria aldeia, não foi feito saneamento, apesar de terem tido oportunidade quando arranjaram as ruas. Naturalmente que o lar recorreu à habitual fossa séptica que, tal o impacto, acabou por secar tudo à sua volta. O mesmo se diga da vasta e populosa freguesia de Cabril: quase nenhuma aldeia tem saneamento. Ao lado, as aldeias o Minho têm-no todas. Nestas aldeias, concertaram as ruas, mas não fizeram os saneamentos nem pensam fazer: Cepeda, Zebral, Antigo, Sarraquinhos já dito, Cortiço… Noutras (recordo-me de São Pedro, mas há muitas mais), abriram valas para os canos da água, mas não fizeram saneamento nem pensam fazer.

Amigo leitor, as razões para não votar PS nas próximas eleições, a 1 de outubro, são muitas. Não queremos um executivo camarário de farristas e de gente que pensa mais nos seus próprios negócios com a Câmara e nas pessoas de fora do que no desenvolvimento sócio-económico das suas gentes. Não fizeram nada para ajudar as pessoas naquilo que realmente lhes importa.

MANUEL RAMOS