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A ENTREVISTA DE ANTÓNIO CAMPOS.

Categoria: Opinioes Publicado em domingo, 06 maio 2018, 19:40

Na sequência do abandono do PS por parte de José Sócrates foi dado ver a muitos portugueses interessados uma entrevista relativamente curta de António Campos, que foi um dos fundadores do PS, ainda antes da Revolução de 25 de Abril. Ainda que curta, e num certo sentido, a entrevista teve o seu interesse, dado que permite compreender alguns dos equívocos sobre que tem vivido o desenrolar da III República em Portugal. É sobre esses equívocos que me determinei a escrever o presente texto.

Em primeiro lugar, a ideia de socialismo democrático. Constituiu para mim um espanto que António Campos continue a tratar e a defender esta ideia, objetivamente já sem conteúdo, para lá de se ter sempre tratado de um equívoco.

Acontece que a ideia de socialismo democrático constitui uma contradição, uma vez que o socialismo nunca poderá ser construído na base de um Estado organizado através da livre escolha dos cidadãos. No caso português, por exemplo, é simples mostrar que bastam cem mil riquíssimos e nove centenas de milhares muitíssimo abastados para que o resto dos portugueses tenha de viver com um baixíssimo nível social. É, precisamente, o que se conhece e à saciedade.

Dizia há dias Jaime Nogueira Pinto, creio que num EXPRESSO DA MEIA-NOITE, que em 1974 o ordenado mínimo nacional era superior ao atual em termos relativos. Não me custa acreditar, para já não referir o sentimento de segurança na vida que então existia e já hoje se perdeu. Por isso escrevi que naquele tempo sabia-se que o dia seguinte seria melhor, hoje sabe-se que o dia de amanhã será pior. E esta é que é a razão do desinteresse pela política: o sentimento de se viver à beira de um constante retrocesso, ou da perda de bens absolutamente essenciais a uma vida minimamente digna.

Em segundo lugar, as suas considerações ao redor do Estado de Direito. Ora, este conceito é meramente teórico, mesmo dinâmico, como se vai podendo ver. Por cá e por todo o mundo. É um conceito meramente teórico, que depende sempre dos traços culturais profundos das populações. No caso português, este conceito teria sempre de entrar em rápida relativização, dado que o modo português de estar na vida é o que eu traduzi, há muito, desta maneira: não viu, não ouviu, não sabe, não pensa, obedece. Foi por ser esta a realidade que o regime constitucional da II República durou quase meio século. O Estado de Direito, quase por todo o mundo, é hoje um conceito em rápida falência. Tal como a democracia.

Em terceiro lugar, a inabilidade dos dirigentes políticos do PS em face da ação dos jornalistas. Só por mera falta de tato foi possível cair na esparrela do caso Pinho. Foi inacreditável ir dando conversa a situações hipotéticas, naturalmente sem valor lógico minimamente interessante ou útil. Claro que se algo de ilícito for praticado por um político, tal constitui sempre um fator de dor e de revolta! Faltou aos dirigentes do PS responder a este tema com esta pergunta simples: e o que pensa o senhor jornalista dos casos que envolveram, ou envolvem, pessoas do PSD? Uma impensável inabilidade política.

Em quarto lugar, António Campos esqueceu-se de abordar o grave problema da relativização da vida em sociedade, com uma cabalíssima perda de valores, colocando tudo à mercê de forças mundiais, que só se movem por via dos interesses de uma ínfima minoria. É Francisco que o reconhece! Uma situação fortemente potenciada com o fim do espaço comunista no mundo, de pronto seguido do triunfo do capitalismo neoliberal. Bom, não se pode ter tudo por dois euros, como se dizia em certo anúncio...

E, em quinto lugar, uma questão que António Campos não abordou e que está na ordem do dia: que vai fazer o PS no congresso que se aproxima, irá virar à direita, como defende Augusto Santos Silva, ou seguir a via que deu frutos excelentes aos portugueses e que é defendida por Pedro Nuno Santos? A verdade é que este PS, defendido por Pedro Nuno Santos, ainda sobrevive e tem o apoio dos portugueses, mas se virar à direita, atirando-se para os objetivos desta – PSD e CDS –, aí começará o início da sua caminhada para a tragédia dos seus congéneres de quase todo o mundo.

Como António Campos pôde já ver à saciedade, é difícil ser-se socialista democrático. Ou antes é impossível e, por isso, suicidário. Foi o que se pôde ver com os partidos desta área por todo o lado. Difícil é não perceber uma tal evidência.