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A Reforma Educativa

Categoria: Opinioes Publicado em segunda, 18 janeiro 2016, 21:02

EducaçãoAí estão já as novas mudanças no setor do ensino não superior. De um modo muito geral, concordo com as mudanças operadas. E se acaso só pudesse escolher entre o novo e o anterior figurino, escolheria o atual e não o outro. Num certo sentido, tive até já a oportunidade de escrever um mínimo sobre este tema. E mantenho tudo o que defendi nos meus dois escritos anteriores.

Como teria de dar-se, de pronto surgiram críticas, sobretudo de dois setores. Por um lado, da Sociedade Portuguesa de Matemática, cujos elementos têm uma visão da importância da matemática que não é acompanhada da generalidade dos outros professores ou investigadores. Por outro lado, dos políticos da Direita, que se deitaram a lançar exames em barda.

Acontece que as críticas à qualidade do nosso ensino, superior ou não, foram crescendo sem parar, sempre contra a escola pública, permanentemente em defesa da liberdade de escolher, e porque – era o que diziam a esmo nas televisões e nos jornais – a qualidade dos nossos alunos seria muito baixa. Chegou mesmo a criar-se o conceito de geração rasca, embora o académico Jorge Calado tenha explicado a Sofia Pinto Coelho que hoje se sabe muito mais. Mais e melhor. Só um tolo pode tentar estabelecer comparações idiotas.

Para nosso azar e do mundo, os homens do setor financeiro globalizado trouxeram-nos uma grave crise humanitária, o que determinou que umas centenas de milhares de portugueses tivessem que deixar o País e os seus. Foi o tempo em que Luís Mira Amaral salientou que quem pudesse e tivesse valor que saísse. E foi o que se deu, mas com esta novidade: os nossos graduados – licenciados, mestres e doutores – eram procurados às catadupas e nos lugares onde a ciência e a investigação alumiam duas vezes. Afinal, os nossos graduados, depois de completados os seus cursos, tinham uma qualidade de topo. E tudo consequência da vasta e eficaz ação da escola pública.

Mas quem eram os que apontavam a tal suposta falta de qualidade do nosso ensino? Pois, os que recusaram a José Saramago o essencial para mostrar ao mundo, ainda antes do seu Nobel da Literatura, a qualidade mundial da sua escrita. Olhadas essas críticas com atenção, das mesmas ressaltam dois dados: uma revolta forte contra o acesso das classes média e baixa aos produtos de uma escolaridade obrigatória vasta e abrangente; e uma nostalgia de velhos tempos, mas que já não voltam mais.

Esses mesmos defendem agora que devia o atual Governo de António Costa operar um estudo profundo das reformas a fazer, de preferência com a colaboração de todos, políticos ou outros. Fingem não perceber estas duas realidades: nem mesmo assim a Direita se quedaria no futuro; nem as alterações ora operadas foram feitas à luz de um sonho recordado ao amanhecer. Quem já dirigiu um gabinete de estudos partidário conhece muitíssimo bem que as direções dos partidos dispõem de estudos atempados sobre os diversos domínios da vida política, sejam gerais ou pontuais. Uma realidade que por igual terá de ter tido lugar no seio do PS. Mas vamos, então, ao novo modelo ora implementado.

Não duvido, minimamente que seja, da lógica de pôr um fim no exame nacional do quarto ano. E também no da célebre prova do Inglês Cambridge. Mas tenho dúvidas sobre a justificação do fim do exame nacional do sexto ano. Simplesmente, tudo isto fica colmatado com os exames de aferição, dado ser ilógico imaginar que os alunos vão deixar de ligar aos mesmos só por não entrarem no cálculo da classificação final. Nenhum pai, mãe ou docente deixará de incentivar os seus dependentes no sentido de conseguirem bons resultados nestas provas. Nem é expectável que quem realmente saiba ao longo do ano venha depois a mostrar amplas discrepâncias nos exames de aferição.

Por fim, o que acaba agora por impor-se: os docentes têm agora o dever acrescido de melhorar, ainda mais, as exigências globais ao longo do ano letivo, tendo em conta os critérios oficialmente estabelecidos. Com este novo modelo, o fator principal passou para as mãos dos docentes, porque até aqui o exame era o fator fundamental para uma boa imensidão de alunos: tudo se fazia com os olhos postos nos exames, e não tanto no desenvolvimento do gosto pelos conhecimentos em si. De resto, raros reagiram à recente reforma, para lá dos habituais. Cá estaremos para ver se a Direita, no futuro, fará como agora diz, evitando mais outra reforma.