imagem_aoutravoz_jpg.jpg

Alcácer Quibir

Categoria: Opinioes Publicado em sexta, 28 setembro 2018, 08:43

Pois é verdade, caro leitor, Alcácer Quibir foi o que surgiu ao pensamento quando me dei conta de que Cavaco Silva surgia no meu televisor a perorar, revoltado e sem a essencial elegância de Estado, sobre a escolha de uma nova Procuradora-Geral da República, sucedendo a Joana Marques Vidal no cargo em causa. Alcácer Quibir e D. Sebastião, o tal que uma dita lenda garantiu vir a surgir um dia numa manhã de nevoeiro. Simplesmente, nunca houvera nevoeiro nesse dia, pelo que a hipótese logo surgida no meu espírito ficou posta de parte.

 

Esta aparição inesperada de Aníbal Cavaco Silva permite hoje uma vastidão de leituras. E é de algumas delas que aqui escreverei hoje. Portanto, vejamo-las.

Em primeiro lugar, Aníbal Cavaco Silva foi o único Presidente da III República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com o mais baixo índice de apoio dos portugueses. Eu mesmo, logo na noite da sua primeira vitória, escrevei: atenção, Cavaco Silva pode não vir a ser reeleito. Era tolerado, mas a sua personalidade na política afastava, ao invés de juntar.

Em segundo lugar, Aníbal Cavaco Silva foi o único Presidente da nossa III República contra quem surgiu uma petição de mais de 70 000 concidadãos, a fim de que deixasse o seu cargo presidencial. Tendo em conta a singularidade do ato e as circunstâncias que levaram ao mesmo, tal mostra o seu já então baixo prestígio junto da comunidade nacional.

Em terceiro lugar, teremos de esperar de alguém que foi Presidente da República um comportamento que não se mostra conflituoso em face dos que o antecederam e dos que o sucederam. Infelizmente, neste domínio Aníbal Cavaco Silva vai ainda mais longe do que Mário Soares. A verdade é que, com estas suas palavras mais recentes – não foram as primeiras – até consegue parecer não perceber o que realmente esteve em jogo com a escolha de Lucília Gago para suceder a Joana Marques Vidal.

Em quinto lugar, e recordando o desafio que Pedro Santana Lopes fez a Jorge Sampaio – tinha razão – é pena que Fernando Lima não faça o mesmo com Aníbal Cavaco Silva, a fim de que os portugueses saibam o que realmente se passou em Belém. Mas será que o antigo Presidente da República iria aceitar um tal convite? Claro que não!

Em sexto lugar, começa a ser tempo de José Sócrates nos fornecer uma obre sua por onde possamos perceber o que foram as relações entre si, como Primeiro-Ministro, e Aníbal Cavaco Silva, como Presidente da República. Espero que José Sócrates não deixe um tal dever para o tempo de S. Nunca.

Em sétimo lugar, se é conhecida a falta simpatia pública de Aníbal Cavaco Silva junto dos portugueses, já se dá o inverso com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Uma diferença que andará na proporção de 1 para 1000. Uma noite de Lua Nova, com céu cheio de nuvens muito baixas, e uma outra de Lua Cheia e céu limpo.

E, em oitavo lugar, esta resposta aflitinha de Aníbal Cavaco Silva veio mostrar o modo político-partidário como a Direita e a Extrema-Direita sempre viram a presença de Joana Marques Vidal como Procuradora-Geral da República. Desta vez, tudo se tornou plenamente claro, já sem lugar a dúvidas.