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CMM: escandalosa falta de verdade.

Categoria: Opinioes Publicado em quarta, 21 junho 2017, 20:41

Não é a melhor altura para falar de fumeiro. Com o calor que está, tão fastidioso é para mim escrever acerca de fumeiro, sobretudo de fumeiro mal produzido, como para o leitor ler o que escrevo. Eu sei que este artigo ou já deveria ter sido escrito, ou deveria esperar por tempo mais fresco, lá para o final do ano. No entanto, as coisas proporcionaram-se assim.

Também quero dizer que não sou contra a feira do fumeiro ou os produtores de fumeiro. Bem pelo contrário, sou entusiasta e acho que, em aldeias de montanha, haverá poucas atividades complementares a uma profissão ou complementares a outra(s) atividade(s) económica(s) que sejam melhores. Estou antes contra certas exigências da Associação de Fumeiro e a costumada propaganda ou falta de verdade da Câmara, como a seguir se prova.

No rescaldo da Feira do Fumeiro 2017, que se realizou em Montalegre, a Câmara não poupou nos elogios para descrever o sucesso que foi a feira: “satisfação foi a palavra de ordem na hora do balanço da XXVI Feira do Fumeiro”; “Presidente da Câmara rejubilou… todos os objetivos foram cumpridos e largamente ultrapassados”, “intensíssima atividade comercial” (Orlando Alves); “é assim que se constrói o sucesso das coisas” (Orlando Alves); “três milhões de euros” (Orlando Alves); “vale a pena sorrir. O carnaval são três dias, mas a feira de Montalegre são quatro” (David Teixeira); “temos a maioria dos stands de fumeiro vazios” (David Teixeira); “foi um sucesso retumbante” (Fátima Fernandes); “era sábado e já não havia fumeiro”, “a melhor feira é a última”. Também alguns membros da assembleia municipal repetiram o discurso: “Sr. Presidente, quero dar-lhe os parabéns pelo sucesso que foi a Feira do Fumeiro.”

Passados poucas semanas, a Associação de Produtores de Fumeiro, responsável pela organização da Feira, reuniu e chegou a conclusões muito diferentes daquelas a que Câmara tinha chegado. Acharam que, em termos globais, a feira foi um fracasso e, como já era o segundo ano seguido, decidiram pôr em práticas uma série de medidas para introduzir melhorias no fumeiro, elevar o seu nível e impedir a queda contínua. Concretamente, afirma em carta a Associação de Produtores: a feira de 2016 teve uma redução de gente e de negócio motivada por dois fatores: coincidiu com eleições e o alarde do botulismo; a feira de 2017 teve uma melhoria insignificante e ficou muito longe da feira de 2015, e a razão principal deve-se tanto à falta de qualidade do fumeiro como à sua má apresentação. Continua a carta: “Uma parte significativa dos expositores continua a ter dificuldade em vender os seus produtos… porque não atingiram níveis aceitáveis de qualidade”. Depois os três subscritores da carta fornecem abundantes exemplos de má qualidade do fumeiro, entre os quais se acham as alheiras com dois dias de cura. Ora essa abundante falta de qualidade no fumeiro ou a sua má apresentação está “de forma discreta, mas muito perigosa, a ameaçar a imagem e o estatuto do Fumeiro Tradicional de Montalegre”.

Por isso, a Associação propõe-se combater essa dupla ameaça através da aplicação de várias medidas que vão desde um Manual de Boas Práticas de Fabrico e visitas de estudo, passando por um trabalho de campo junto dos produtores, com visitas às suas cozinhas, até inspecionar com rigor o fumeiro que entra na feira, parecendo a Associação querer assumir esse controlo indispensável. Mas para isso precisa de meios financeiros: 80 mil euros, dos quais 35 mil imediatamente.

Perante dois discursos contraditórios: o da Câmara, sumamente encomiástico, e o da Associação de Produtores de Fumeiro, crítico e até cáustico, em quem acreditar? Eu não tenho dúvidas em me decidir pelo da Associação, por me parecer mais realista e consentâneo com aquilo que já escrevi e com o que vejo e ouço; e ainda porque o discurso da Associação surge, fruto da reflexão, algumas semanas depois do evento, sendo por isso mais ponderado. Além disso, a Associação não é movida por interesses políticos ou demagógicos com a Câmara é em tudo o que faz.

Câmara e Associação são, de facto, movidas por interesses muito diferentes. Esta está interessada em fazer um diagnóstico e, no caso de as coisas não estarem bem, como é o caso, aplicar uma cura; a Câmara, pelo contrário, está apenas interessada no espetáculo e como isso lhe pode trazer dividendos políticos, reconhecimento da parte da opinião pública e promoção pessoal. Por isso, se há mazelas na feira, o melhor é fazer de conta que não existem; se há decadência, o melhor é virar a cara para o lado e, mesmo que se sinta, não dar mostras de fraco e proceder como se não existisse porque o “show” tem de continuar. Uma boa feira é aquela em que se mima um bom espectáculo, com os meios de comunicação por perto e os camaristas em bicos de pés a darem entrevistas e a servirem de cicerones. O importante não é o que a feira é, mas a imagem que dela se pode construir através da propaganda imagética e noticiosa.

No entanto o presidente da Associação não está livre de críticas: é certo que reconhece a decadência da feira e logo adota medidas de revitalização, o que é de louvar, mas fica-lhe mal durante a feira ter um discurso completamente contrário. No balanço da feira Boaventura disse: “Faço o melhor balanço possível. Ultrapassou, de longe, as nossas expetativas. Todos os dias foram bons. Todos os produtos tiveram bom escoamento”. Portanto, estava a mentir quando fez este comentário.

Além disso, passados 26 anos, a feira continua num nível bastante básico, o fumeiro continua mau, como ele afirma, a sua Associação não atingiu autonomia, não quebra quotas aos associados e produtores e continua a depender inteiramente do orçamento da Câmara. Assim é fácil ser presidente. E mais: a sua Associação, para lá de gastar cerca de 300 mil euros na Feira / Festa, e de ter recebido 500 mil de fundos comunitários (de que a seguir falaremos) ainda vem pedir agora mais 80 mil. Como se compreende que, com 500 mil na algibeira de fundos comunitários para “revitalizar a fileira”, venha pedir ao orçamento da Câmara mais 80 mil, precisamente para as mesmas funções que a verba comunitária? Porque não se gastou menos na Festa ou então não se pediu aos associados, que são quem mais lucra com o evento?

Uma outra questão, amigo leitor, que com esta se relaciona: a Câmara fez tudo para esconder esta carta da Associação que assinala a decadência da feira, apontando como causa a falta de qualidade do fumeiro. Mas como o pedido de subsídio tinha de ir a reunião de câmara e a oposição iria ter conhecimento do facto, Orlando Alves tentou iludi-los, registando informação errónea na ordem de trabalhos. Escreveu: “Subsídio a apoiar nas despesas com a feira do fumeiro”, quando devia ter registado: “Subsídio a atribuir à Associação de Produtores do Fumeiro com vista a melhorar a qualidade do fumeiro”. Mas o PSD deu conta e chamou a atenção: não é um apoio para despesas com a feira do fumeiro, porque esse já tinha sido dado, mas sim um subsídio para melhorar a feira que cada vez tem menos gente e piores vendas. A oposição chegou mesmo a acusar Orlando Alves de ser o principal responsável pela decadência da feira. O Presidente teve de reconhecer o logro e a crítica. Isso mostra claramente como temos de estar sempre desconfiados daquilo que a Câmara nos diz e, claro, como diz o Padre Lourenço Fontes, quando falam em números “tirar sempre um zero”.

Este artigo terá continuação daqui por meio ano, no rescaldo da próxima feira do fumeiro para avaliar os frutos desta sementeira de 80 mil e se valeu a pena mais este investimento do orçamento da Câmara, para lá dos 300 mil que a Câmara gasta todos os anos na organização da Feira/Festa. E cá estaremos para avaliar os resultados da candidatura da Associação ao Portugal 2020, que se traduziu no fundo comunitário de 500 mil euros para dinamizar a fileira do fumeiro, e indagar se dessa sementeira foi ou não colhido saboroso fruto; ver se houve progressos relevantes ou se continua tudo na mesma ou pior, como temo.

Cá estaremos para ver os “novos métodos e novas práticas de fabrico”, a “organização da produção”, a “promoção da competitividade do setor, estimulando a competição dos agentes económicos da fileira e a adoção de boas práticas e novos métodos nos processos de fabrico do fumeiro”, o “rejuvenescimento da fileira e atração de jovens e o aparecimento de novos produtos inovadores”, a “promoção dos produtos a nível nacional”, a “criação de uma plataforma on-line”, o “negócio do leitão e a produção de animais para venda”. Vamos aguardar e eu prometo voltar ao assunto.

Manuel Ramos