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Cravo e Ferradura

Categoria: Opinioes Publicado em quinta, 14 janeiro 2016, 15:36

 

Cravo e ferraduraQuem estiver atento ao que está a passar-se com a presente campanha eleitoral para o Presidente da República, e também não tiver uma qualquer vantagem muito particular com a eleição de certo candidato, terá já percebido esta realidade muito simples de observar: a generalidade dos portugueses tem um quase nulo interesse no tema, o que se constitui num terrível erro, dada a importância fulcral do Presidente da República na nossa vida pública. Basta recordar o que se passou entre o Presidente Cavaco Silva e o Primeiro-Ministro José Sócrates, bem como a mais recente intervenção do primeiro no nascimento do atual Governo de António Costa.

 

Acontece que a generalidade dos portugueses, nas suas convivências correntes, quase não se pronunciam sobre o próximo ato eleitoral. Quem tiver o hábito de frequentar cafés, aí tomando a sua bica, um ou outro bolinho, e lendo ou escrevendo, facilmente se dá conta de que nas mesas ao seu redor não tem lugar uma única conversa sobre a próxima eleição, a ter lugar no penúltimo domingo deste mês de janeiro. De resto, tem sido este o panorama nos restantes atos eleitorais. Uma histórica maneira de estar na vida...

 

Ainda assim, não é possível, para lá de apreciações diversas sobre outros candidatos, deixar de perceber o método usado por Marcelo Rebelo de Sousa, e que é o método do cravo e da ferradura. Isso mesmo se voltou agora a poder ver ao redor das mudanças operadas no Sistema Educativo, ao nível do Ensino Básico: o sistema de avaliação em Educação não pode mudar a cada Governo.

 

A verdade é que Marcelo não teceu qualquer crítica às mudanças operadas pelo Governo liderado pelo seu PSD, porque também este operou mais uma mudança. E que mudança! De resto, como facilmente qualquer um percebe, basta que o PSD volte ao Governo para logo surgirem novas mudanças. No fundo, se virmos as coisas com atenção, o que Marcelo e a Direita querem é que as suas modificações nunca venham a ser alteradas. No fundo, pretendem manter a (dita) democracia, mas também esterilizá-la, tornando-a em mero sistema entrecortado por inúteis eleições.

 

As explicações já dadas pelo Ministro da Educação foram muitíssimo claras: os exames devem surgir no final das grandes unidades curriculares e constituem uma peça complementar na globalidade da apreciação do aproveitamento do aluno. O contrário, pois, do que a Direita pretende, e que é a criação de um sistema que sirva para selecionar os que possam dispor de melhores condições de estudo e de apoio, que seria sempre um sistema de avaliação centrado em exames finais frequentes. Sempre se disse, e pelo que eu mesmo vivi, com razão, que exames finais pontuais e frequentes eram pouco tradutores de uma capaz mensuração do aproveitamento escolar do aluno. Hoje, porém, tenta-se repor, neste movimento de retorno das ideias da velha Direita, o que sempre quase todos condenaram. É, indiscutivelmente, um sinal dos tempos.

 

Mas o ministro também voltou a mostrar razão ao considerar que um ensino capaz e com qualidade tem de ser muitíssimo mais que Matemática e Português. E as humanidades? E as línguas? E o conhecimento da vida pública e da organização do Estado e das grandes instituições, internas e internacionais? Nada disto é estruturante? Em todo o caso, parece-me que as tais duas provas do nono ano – Matemática e Português – devem manter-se, mas acompanhadas de um uma outra que vá rodando ao longo dos anos.

 

Pôr em funcionamento as provas de aferição, nos anos agora indicados, constitui, por um lado, um incentivo para os alunos, porque ninguém com bom senso e com bons professores, terá gosto em ficar em mal, e, por outro lado, um mecanismo que acaba por transferir para as escolas e para os professores o encargo de desenvolver nos alunos o gosto pelo saber e a autoestima. É um sistema muito mais global e muito melhor mensurador. E que fica muitíssimo mais dependente da escola e do professor.

 

O interessante foi ouvir aqueles dois andamentos, cravo e ferradura, com que Marcelo Rebelo de Sousa nos brindou: o sistema de avaliação em Educação não pode mudar a cada Governo. Mas como acha ele que se deve operar tal?

 

E já agora: Diogo Freitas do Amaral terminou o seu curso de licenciatura em 1963 e o curso complementar de Ciências Jurídicas em 1964, pelo que, tendo Marcelo terminado o primeiro em 1971, como precisou de três anos para finalizar o segundo? Ainda assim, o serviço militar obrigatório manteve-se por muitos anos, embora com modificações ligeiras e progressivas. Ou seja: em que se fica? E que é feito dos nossos patriotas da Direita, que por aí andaram a pôr em causa Soares e Alegre nos jornais e em livros? Falta-lhes agora o pio?

 

E mesmo por fim, as recentes explicações de Jorge Lacão ao redor do que se passou com revisão Constitucional de 1997. Objetivamente, Marcelo Rebelo de Sousa varia de um modo absolutamente incontrolável, o que se constitui num terrível risco se, por erro trágico dos portugueses, vier a suceder ao atual Presidente da República. Em resumo: só não vê quem não quer.