topo1.jpg

Depois do Estado Novo, o Novíssimo.

Categoria: Opinioes Publicado em domingo, 18 outubro 2015, 20:02

CavacoMesmo com os meus sessenta e oito anos bem vividos, e sempre atento, desde muito novinho, à vida da nossa comunidade e aos acontecimentos do mundo, não consigo deixar de ficar admirado com as limitações dos portugueses, muito em especial com as surgidas ao nível do que é usual – em muitos casos é um erro – designar por elites. Simplesmente espantoso!

A Revolução de 25 de Abril caiu sobre a sociedade portuguesa e sobre os portugueses há mais de quarenta e um anos. Desde essa data, e para lá da natural turbulência inicial, em mui boa medida criada por um conjunto vasto de oportunistas e falsos idealistas, invariavelmente acolitados hoje sob a área do PSD – convém recordar as previsões de José Pacheco Pereira no Flashback, em diálogo com José Magalhães e com a aquiescência sorridente de José Luís Nogueira de Brito –, o funcionamento do nosso Sistema Político foi excelente e sem grandes sobressaltos.

Bem pior foi o do Sistema de Justiça, que acabou por chegar ao estado de inacessibilidade, por parte dos cidadãos, que hoje se conhece.

Simplesmente, uma coisa é esse bom funcionamento ter sempre sido a marca da nossa III República, outra os resultados que os portugueses conseguiram almejar. E estes dependem sempre, acima de tudo, dos próprios portugueses. De um modo muito geral, o português é invejoso e desinteressado da vida pública. Na sua ordem de prioridades, em termos de atenção e de interesses, estão sempre primeiro o futebol, as telenovelas, as distrações televisivas, as festarolas, etc.. A vida pública e a reflexão em torno da mesma só chegam muito mais tarde. Quando chegam.

Junto de minha casa existe um local adequado a deitar lixo, mas a verdade é que as pessoas individuais, até entidades coletivas, deitam boa parte do seu lixo no chão. Pois todos os dias esse lixo é retirado, mas muitos dos locatários continuam a vociferar contra a autarquia, apontando-a como não operando a essencial limpeza!

Hoje mesmo, nesta manhã de sábado, quando escrevo este texto, têm ocorrido na minha zona residencial bátegas fortes e frequentes de chuva, tal como se avisara já ontem. Mas se houver um alagamentozito qualquer, a culpa é da câmara municipal, nunca dos que protestam aqui, mas deitam papeis para o chão nas ruas, bem como mil e um outros dejetos.

Pois, há momentos, estive à conversa com um desses criadores de lixo nas ruas. Trata-se de um histórico salazarista, que deveria ter uns trinta anos ao tempo de Abril, já com o serviço militar cumprido em Moçambique. E qual é agora o seu receio? Bom, farto como está com a atual maioria, tendo votado PS, vive agora preocupado com o tal possível acordo PS-BE-PCP.

Perante esta sua confissão-pergunta, coloquei-lhe eu mesmo esta pergunta: mas o que é que pensa que pode vir daí de mal? Bom, respondeu-me deste modo: eu sei lá?! Conduzi a conversa para a ação política de Aníbal Cavaco Silva como Presidente da República, salientei-lhe o que se contém no acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa sobre o caso Sócrates, e voltei a colocar-lhe esta pergunta: o que têm o Bloco de Esquerda e o PCP que ver com tudo isso? E voltei a perguntar: acha que foram o Bloco de Esquerda e o PCP que conduziram Portugal e os portugueses a esta situação? Pois, recebi dele esta resposta: claro que não, quem fez isto tudo foram estes gajos.

É interessante poder constatar como no Estado Novo, ao tempo da II República, os comunistas e os oposicionistas eram um perigo terrível, e como hoje, já com o Estado Novíssimo, depois da vitória de Salazar no concurso, O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE, comunistas e bloquistas continuam a ser vistos como uma gentalha que não pode intervir no exercício da vida pública.

Claro que a culpa principal desta realidade está na generalidade da população portuguesa, mas está, por igual, nas tais designadas elites, mas que acabam por mostrar-se com concidadãos de pensamento empenado. Vivem marcados por tiques e também ligados por vastos interesses instalados, só suscetíveis de poderem ser mantidos com as condições criadas há dez anos e há quatro. Em política, o preço da desatenção e do desinteresse é terrível e paga-se ao preço da platina.