topo1.jpg

Leituras de Verão: entre o Padre Domingos Barroso e Bento da Cruz

Categoria: Opinioes Publicado em terça, 20 setembro 2016, 17:55

De entre os muitos livros que li nestas férias grandes, uns relativos a Barroso, outros relativos às matérias que estudo, dois despertaram a minha atenção: “As Ripadas do Padre Domingos Barroso” e os “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, de Bento da Cruz. Em próxima edição abordarei “A História de Barroso”, de José Dias Baptista, apresentando algum conteúdo erróneo e viciante.

 

O primeiro é constituído por uma recolha de crónicas literárias, dispersas por “A Voz de Trás-os-Montes” entre os anos 1948 e 1952, onde vemos a sua faceta de colaborador e de escritor. O Coronel Dias Vieira foi o responsável pela selecção e compilação dos textos, pela sua gradação e pelo comentário introdutório a cada um deles. Por vezes, o seu comentário introdutório é ele próprio uma crónica, como quando aborda a questão da extinção do urso no nosso concelho, ou quando fala do lobo como predador implacável, ou quando aborda a migração barrosã para Lisboa ou ainda quando fala de uma fonte de “Ao longo da Fronteira”, de Bento da Cruz.

Em termos gerais, o livro é muito bom. O Coronel Dias Vieira já nos habituou a boas publicações. Lembrando aqui o seu libelo “Guerra em Rima”, que li há dias, apetece dizer que Dias Vieira sabe muito bem distinguir a matéria que tem dignidade para constituir livro daquela que não tem esse valor.

A Câmara, ao financiar a sua publicação, acertou (bingo!), mas infelizmente já estourou muito dinheiro ao custear livros sem critério e sem qualidade, livros que causam náuseas e urticária a quem lê, livros que são perigosos para a educação dos jovens por neles os erros ortográficos crescerem como cogumelos, livros que é melhor queimar numa salamandra da escola e produzir muito calor do que colocar numa estante da biblioteca.

Na escrita do Padre Domingos, tem sido relevado a prosa elegante, mas há muito mais do que isso. É verdade que escreve em “estilo elevado”, mas também sabe escolher um tema apropriado para cativar a atenção do leitor e sabe desenvolvê-lo com argúcia e enlevo. E é assim que deve ser a literatura. Por isso é que “o livro se lê como um romance” (Dias Vieira). Mas há mais: há também o elemento ideológico, o pensamento deste clérigo que é brilhante para a época.

As suas crónicas têm início com a crítica literária e corrosiva a “O Arcipreste de Barroso”, depois continuada a “Terra Fria”, de Ferreira de Castro e a “O Bruxo da Montanha”, de J. Mota Júnior. Neste tempo ainda a obra de Bento da Cruz não tinha “entrado em cena”, caso contrário julgo que teria merecido do Padre Domingos maior número de ripeiradas, especialmente pela forma como o sacerdote (“um pinante”) e a mulher (“uma fêmea no cio”) são tratados. Acharia uma torpeza e ingratidão.

As suas crónicas abordam depois a caça, de que era um apaixonado (naquele tempo ainda havia a figura do padre-caçador e hoje felizmente já não há), lembrando que, se houver uma boa política municipal da caça, renderá muito dinheiro e atrairá muita gente endinheirada. Infelizmente, a política municipal da caça é hoje bem pior do que naquele tempo, em que a CVC lhe pediu conselho. Não omite a caça clandestina e a figura perpétua do caçador como “transgressor”.

Para lá da caça, também lhe é querido o tema da genética, que era muito recente nos meios universitários portugueses. Numa das crónicas, chega a dar uma lição de genética e ensina como proceder (incluindo pelo recurso à consanguinidade) para ter gado mais leiteiro, bois mais lidadores ou raças mais corpulentas. Defende a chega de bois, não porque goste de chegas, mas porque a acha necessária para o melhoramento das raças e para combater a importação de gado galego. Chega a aconselhar a genética arbórea e defende que em Barroso há condições para a produção local de fruta para autoconsumo.

Não dispondo de mais tempo, apresento em síntese mais algumas ideias suas: defendia a formação de um corpo de bombeiros a ser financiados por Montalegre e aldeias vizinhas, já que, em caso de incêndio, eram as únicas que podiam ser socorridas a tempo; tal como eu próprio defendo, ele defendia acções de sensibilização junto das pessoas e achava que, dada a escassez de mentores agrícolas, eram os sacerdotes que as deviam fazer por estarem mais próximos das populações. Aborda ainda o que é isso de “ser barrosão”, a migração para Lisboa, repovoamento, língua portuguesa, a mulher, a máquina e a velocidade, perda de autenticidade, falta de higiene nas aldeias, Salazar, Tenente Canedo, etc.

Definia-se a si próprio como “um curioso que gosta de manter os olhos abertos sobre todas as janelas da vida” (p. 141) e dá a entender que o melhoramento das condições de vida locais trarão benefícios espirituais.

Num dado ponto (p. 55), a respeito do tenente Canedo, fala-se de “O Lobo Guerrilheiro”, de Bento da Cruz e da imprecisão do nome “guerrilheiro”. De facto, nem Dias Vieira nem eu próprio (mas por razões ligeiramente diferentes) achamos que esta palavra é a mais apropriada para descrever a acção dos bandoleiros galegos e até portugueses num e noutro lado da fronteira nos anos 40 e parte dos 50. Essa palavra é a mesma de “Guerrilheiros e Antifranquistas” e, por isso, notamos a mesma imprecisão no título.

Acerca deste livro de Bento da Cruz (“Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”), têm recaído suspeitas de autenticidade, provindos de círculos próximos do Padre Domingos, há já vários anos. Em suma, há duas famílias que reivindicam o mesmo livro (que por sinal não é grande coisa!) e que cada uma delas terá os seus argumentos e era bom que os apresentassem à sociedade.

Quando assim acontece, o melhor que há a fazer é discutir o assunto pública e serenamente, sem medo, sem ameaças, sem olhos raiados de sangue e sem figuras tristes, dado o interesse que há para os respectivos autores; e porque há interesses legítimos de uma das partes (seja ela qual for) que estão a ser prejudicados e porque o assunto é de interesse local, eventualmente regional. Sobretudo importa submeter o livro ao crivo da crítica ideológica e filológico-literária.

Eu interessei-me pelo caso, não só porque tenho trabalhado com o plágio, mas também porque tenho interesse nas publicações locais e ainda porque gosto de partilhar publicamente ideias nos órgãos culturais. E o único órgão independente e sério é o “Notícias de Barroso”, dirigido pelo Prof. Carvalho de Moura.

Por aquilo que me foi dado investigar (mas não é assunto encerrado), a estória do “manuscrito finalizado e vendido” não passa de um mito que teve origem em Vilar de Perdizes ou Meixedo por pessoas próximas do Padre Domingos Barroso.

O livro, tal como foi publicado, parece todo ele de Bento da Cruz, tanto ideológica, como estilística e vocabularmente.

Ideologicamente, faz a apologia do bandoleiro antifranquista, a que chama eufemisticamente “guerrilheiro”, e eleva-o à categoria de herói romântico; o fascismo foi a desgraça de Espanha, enquanto que o comunismo teria sido a salvação. Pelo contrário, o Padre Domingos via nos “guerrilheiros”, e muito bem, bandoleiros e assassinos comunistas e detestava a facção republicana.

Estilisticamente, predomina o estilo narrativo de Bento da Cruz, por vezes com tiradas elegantes.

Vocabularmente, também é o vocabulário típico de Bento da Cruz e não o vocabulário mais arcaizante do Padre Domingos.

Como documento, o livro é fraco. Também é de difícil enquadramento num género, pois não pretende ser literatura, mas também não é história; também não é o típico ensaio. Eu defini-lo-ia como um “ensaio à Bento”. Quando aborda a pseudo-guerrilha (e não guerrilha) republicana (1.ª parte) segue fraca bibliografia republicana espanhola e uma entrevista de César Rios (tratado pela justiça como bandoleiro contumaz e elevado por Bento da Cruz ao estatuto de herói); na segunda parte, aborda a pseudo-guerrilha que circulava nas zonas de fronteira entre Espanha e Portugal depois do fim da guerra civil espanhola e da II Guerra Mundial; a morte do Pinto de Negrões (um malandro por ser do partido dos Canedos), o julgamento…

Nesta segunda parte, copia com abundância o processo do Demétrio (outro bandoleiro segundo a justiça, mas que não participou na morte do Pinto de Negrões), que está no Tribunal Militar do Porto, e o processo de José Pereira, de Lamachã, sobre quem recaiu a suspeita de incentivar os bandoleiros à morte do Pinto de Negrões. Para Bento da Cruz, José Pereira foi uma vítima da ditadura local dos Canedos, um Cristo, que padeceu um martírio. Grande parte do livro é uma apologia a este José Pereira e crítica corrosiva aos “três manos Canedos” que compara a “gangsters” locais.

Isto é fraco, isto nada tem a ver com o pensamento do Padre.

Há proximidade entre este livro e outro de Bento da Cruz: “Ao longo da fronteira”, depois alterado para “O lobo guerrilheiro”, onde predomina a mesma ideia romântica do bandoleiro e em que todos os seus crimes, a que eufemisticamente chama “golpes económicos”, são justificados.