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MAIS UM ESTUDO.

Categoria: Opinioes Publicado em terça, 20 fevereiro 2018, 17:25

Encontrei ontem, creio que na edição do EXPRESSO, a notícia de que o Observatório da Sociedade Portuguesa da Católica Lisbon / School of Business and Economics realizou, em novembro de 2017, um estudo intitulado, ESTUDO DA SOCIEDADE PORTUGUESA: FELICIDADE, HÁBITOS DE POUPANÇA E CONFIANÇA ECONÓMICA, e que foi agora divulgado. Mais um estudo.

Sem surpresa, o estudo em causa veio revelar que a Presidência da República – ou o Presidente da República? – é a instituição que tem melhor reputação junto dos portugueses. Bom, como facilmente se percebe, trata-se de uma evidência que sempre prescindiria de um qualquer estudo. Uma realidade que fica a dever-se a três fatores essenciais: o facto de ser Marcelo Rebelo de Sousa há muito conhecido dos portugueses; o seu modo de atuar no contacto com a população, sempre sorridente e brincalhão, tocando mesmo o populismo; e por não ter reais responsabilidades sobre a condução dos destinos do País e dos portugueses.

Em contrapartida, o estudo chegou à conclusão de que a confiança no Governo é moderada. Ou seja, não é má, mas arrasta consigo o ónus de ter de realizar trabalho que se veja, o que é hoje algo de complicado, tal foi o estado em que a anterior Maioria-Governo-Presidente deixou a generalidade dos nossos serviços públicos e a grande maioria dos portugueses. Basta recordar, para lá dos restantes mil e um setores, o da Saúde e o caso dos CTT. E quem não recorda o que se passou com o caso GES/BES, ou com o BANIF? Imagina-se o que seria hoje o estado da Caixa Geral de Depósitos, da TAP ou dos transportes públicos de Lisboa e Porto...

Tudo isto é expectável e natural. O estudo, porém, traz dois dados interessantes, um deles perfeitamente natural, o outro quase nunca desenvolvido.

O primeiro diz respeito à muito má imagem dos bancos junto dos portugueses, o que se compreende perfeitamente: gato escaldado de água fria tem medo... Objetivamente, os portugueses teriam de ser tolos se assim não pensassem.

O segundo já constitui uma novidade noticiosa, porque nas convivências correntes há muito que os dados de agora vêm transparecendo: a segunda situação em que os portugueses menos confiam são as igrejas ou religiões organizadas. Refere o estudo que numa escala de 1 a 10 pontos – em que o valor mais alto corresponde a uma maior confiança –, os bancos receberam uma nota de 4,03, com as igrejas a não irem além de 4,05.

Ninguém duvida de que esta é a realidade que se passa com os bancos, fruto de quanto se tem visto, por cá e por todo o mundo, e de quanto se depreende dos métodos seguidos pelos bancos, bem como dos valores em que se suporta a sua atividade em face das pessoas e da sua natureza humana.

Diferente é o caso das igrejas ou religiões organizadas. Se é verdade que das convivências correntes se depreende uma forte desconfiança, já a sua abordagem pela grande comunicação social se fica, com laivos de sensacionalismo, pelas Testemunhas de Jeová e pela IURD, fugindo, quase completamente, a tratar o que se tem vindo a conhecer, por todo o mundo, ao nível da Igreja Católica Romana. Basta reparar, para lá do mais, o quase cabal silêncio ao redor da luta interna, no Vaticano, contra o Papa Francisco, já por uma ala razoável de cardeais colocado à beira do alfobre dos hereges!! Ou a falta de uma informação minimamente clarificadora sobre a fortíssima opressão religiosa católica na Polónia, como expôs, de modo tão lúcido e claro, o padre polaco entrevistado por Vítor Gonçalves.

Por fim, esta minha dúvida: que repercussões irá ter este estudo na estratégia e na ação da nossa Conferência Episcopal dos Bispos Portugueses? Será esta nossa estrutura católica capaz de atuar em termos de mudar a má e correta imagem que os portugueses têm sobre as igrejas ou religiões organizadas? Não creio. Creio, isso sim, na autêntica inutilidade deste estudo, porque os resultados que nos fornece eram já conhecidos por quase todos e porque duvido que venha a mudar mentalidades e estratégia.