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O Campo de Tiro é um "tiro no pé" da Câmara.

Categoria: Opinioes Publicado em terça, 18 julho 2017, 23:40

Era um fim-de-semana de muito sol, quando eu passava na Senhora das Neves entre Montalegre e Padornelos. Quis parar e visitar a ermida. Entrando através de um portão, deparo-me com um amplo espaço murado que tinha na sua parte central uma bela capela e ao lado um edifício civil, provavelmente da mesma época. Ainda que lhe faltasse o sino na torre sineira que encima o frontispício, não deixa de ser uma ermida muito bonita. Aparenta ser dos finais do séc. XVII, ou até anterior. Encostado a uma parede, jaz um sarcófago com vestígios de antropomorfismo. Aparenta ser do séc. IX, ou até anterior, quando existia naquele lugar uma necrópole.

Depois, saindo do espaço murado e agradecido por ter visitado sítio tão encantador, subi a uma colina do lado Oeste, pois quis saber que paisagem natural e humanizada se avistava daquele outeiro. Foi então que os meus olhos se fixaram, ali perto, naquilo que já há muito desejava visitar e que, pelas piores razões, tinha ouvido falar. Era o malfadado Campo de Tiro, uma nova obra falhada da Câmara Municipal e da política de Orlando Alves, um horror.

Vistos do alto, tínhamos de um lado a belíssima ermida e o espaço agradável que a rodeava; do outro lado, uma ampla cicatriz na paisagem, que profundamente a feria, e que tanto parecia uma mina a céu aberto como uma cratera rasgada pelo impacto de um meteorito. Vistos de outra forma, tínhamos de um lado o trabalho construtivo e útil da Igreja, que com pouco dinheiro faz maravilhas, e do outro lado o trabalho destrutivo e esbanjador do poder civil, que não sabe o que anda a fazer e que mete nojo.

O Campo de Tiro de Montalegre é mais um “tiro no pé” da Câmara, um desperdício de dinheiro, mais uma das obras podres a que a CMM já nos habituou. Calcula-se que naquela cratera desfigurante às portas de Montalegre, já lá tenham sido estoirados mais de 300 mil euros do dinheiro do erário. Grande cratera! Só naquele espaço perto de Padornelos, contam-se três obras inúteis avaliadas em 16 milhões de euros: a malfadada Pista com a qual o PSD nada quererá quando for Câmara; o incompleto e abandonado Campo de Tiro, um espaço de poluição às portas de Montalegre; e a estrada, não para Chaves, como devia ser, mas para o alto do Larouco, que por acaso é a melhor do concelho e que foi feita para a Volta a Portugal em Bicicleta.

Pouco sabemos do Campo de Tiro, dado o secretismo à sua volta, e pouca informação consegui recolher para este artigo. Também não sabemos, dado o silêncio, dos motivos que levaram a Câmara a empreender aquela obra em Montalegre, já que em Salto existe um bom campo de tiro que recebeu recentemente uma prova internacional, subsidiada pela CMM em muitos milhares de Euros. Assim sendo, que necessidade havia de fazer um novo campo? Será que os desportistas não se podem deslocar a Salto? As crianças do concelho fazem, para irem à escola, as deslocações mais longas da Europa. Pelo contrário, os desportistas de tiro têm de ter um campo à porta de casa! Não compreendo esta política.

Ocupa uma área de pouco mais de um hectare, quase todo ele escavado na rocha xistosa. Está servido por dois acessos em estradão e, pelo estradão que desce da Senhora das Neves, está provido de eletricidade em postes de cimento. Quase no centro da cratera existe o “bunker”: uma estrutura em betão enterrada no solo, em forma de L e inacabada, que é a partir dela que os desportistas, rente ao solo, disparam aos pratos.

Toda aquela estrutura, em que já se gastaram mais de 300 mil euros, jaz abandonada, como se tratasse de um filho enjeitado, e até parece que foi largada à pressa. O que terá acontecido? E, se não foi abandonada de vez, quanto falta ainda gastar para que a estrutura esteja pronta a funcionar? A CMM nada diz. Há plásticos enormes espalhados pelo chão, estacas de madeira, gravilha, grandes montes de terra no meio… A vegetação está pouco a pouco a tomar conta daquele espaço. Já há giestas crescidas por todo o lado, algumas das quais já têm um metro de altura. O grande volume de terra e rocha escavada foram depositados na parte Oeste, que é mais baixo, com o objetivo de nivelar o terreno.

O Campo foi contruído numa linha de água a qual o atravessa na sua parte sul, no sentido este - oeste, e vai desaguar no rio Cávado. No fim de contas, temos ali mais um foco de poluição do rio, a que se juntam os esgotos de Montalegre e da zona industrial. Neste momento, o rio Cávado é dos mais poluídos de Portugal.

Em conclusão, amigo leitor, como cidadão atento à política local, dói-me o que se passa com o campo de tiro de Montalegre, quer pelo dinheiro que já lá foi gasto, quer por ser mais uma obra podre e inútil da Câmara, quer ainda porque não se justifica, atendendo à qualidade do campo de tiro de Salto, que até recebe provas internacionais. Além disso, é mais um foco de poluição nas margens do rio Cávado, já de si terrivelmente poluído. Ainda que o desperdício não seja tão grande, pode de certo modo ser comparado com a famosa ponte a apodrecer no meio do monte e pela qual a estrada jamais passará, nem nenhum automóvel a cruzará.

MANUEL RAMOS