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O CENTRO

Categoria: Opinioes Publicado em terça, 01 dezembro 2015, 10:05

Ao tempo da Revolução de 25 de Abril surgiram partidos os mais diversos, com ideologias clássicas ou com cambiantes suas. Dada a inexistência de tradições partidárias há muitas décadas, alguns desses partidos procuraram ligar-se, de imediato, às estruturas internacionais existentes e foram inicialmente apoiados, na sua instalação, por via dos seus congéneres alemães. Sobretudo estes.

No plano geopolítico, porém, quase todos acabaram por alinhar com a grande estratégia dos Estados Unidos, muito em especial o PS de Mário Soares. Foi deste modo que o PS acabou por cair na armadilha do apoio à UNITA, rapidamente desenvolvida mal terminou a Guerra Fria. Uma realidade ainda hoje presente na nossa política internacional.

Aos poucos, o PS acabou por ir apoiando sucessivas revisões constitucionais, que levaram a uma progressiva transferência do poder e da riqueza do lado da grande maioria dos portugueses para uma minoria que também se vem minimizando. O que se havia nacionalizado passou a ser acessível ao setor privado, à luz da inacreditável ideia de que se criaria assim uma salutar competitividade entre os setores público e privado. O tempo, porém, mostrou o que, há já uns dois anos, Luís Mira Amaral referiu num programa televisivo: quando se privatiza uma menor parte de certa empresa, a experiência mostra que toda a empresa acaba, depois, por ser privatizada.

Hoje, como pode já ver-se, o Governo da Nação vinha estando – o anterior Governo – completamente ligado à estratégia dos grandes interesses económicos e financeiros. Um verdadeiro Estado árbitro. Tal como hoje mesmo referiu o Papa Francisco, o dinheiro e a riqueza passaram a ser os grandes valores das comunidades humanas, perseguidos e controlados por uma minoria, legislativamente apoiada por Governos de concidadãos que entram ou saem do Governo ou das empresas por levas de oportunidade.

Neste sentido, e como se tem podido ver à saciedade, a democracia deixou de ter sentido. Uma realidade que assumiu o seu máximo com a nossa presença no seio da União Europeia, para mais com a terrível crise que sobreveio, com o surgimento do desemprego, da pobreza, da emigração, da destruição progressiva do Estado Social e, agora, até com o grau, por muitos nunca imaginado, de conflitualidade e de guerra.

Esta perda de importância e de vivência da democracia, ao nível puramente interno, foi o que gerou o conceito de centro político. E foi neste terrível ambiente que se desenvolveu a vastíssima corrupção que vem varrendo a vida do País, para o que convém recordar as palavras certeiras da Procuradora-Geral da República, ao redor da tal rede de interesses que se foi, paulatinamente, introduzindo no seio das estruturas do Estado e da generalidade dos lugares onde existe algum tipo de poder. Lamentavelmente, esta realidade, generalizadamente reconhecida, quase não sofre consequências no plano penal.

Foi este mecanismo do centro político que deixou de funcionar nestas anteriores eleições para deputados à Assembleia da República. Quase sem soberania, com crises de todo o tipo a assolarem o espaço europeu – até mundial –, havendo que manter a democracia (aparente) a todo o custo, a Direita precisava do PS, mas como bengala da sua ação política. Em contrapartida, os portugueses mostraram-se fartos de um sofrimento que não iria ter um fim breve. Foi isto que gerou o reconhecimento pelo PCP, Bloco de Esquerda e Os Verdes do imperativo de colocar de lado, temporariamente, os seus ideais de fundo, de molde a evitar o fim do PS e a manutenção da Direita no poder para quase todo o sempre. Realidades a que acrescia o facto central de ser o Presidente da República oriundo do espaço da Direita, o que em Portugal é sempre um risco.

Acontece que o centro político também gerou a ideia da Concertação Social, que acabou por se tornar num essencial fator de distorção da realidade social. De um modo verdadeiramente inenarrável, a Concertação Social alcandorou a UGT a um lugar cimeiro no seu seio, quando esta central sindical representa uma mínima parte dos trabalhadores portugueses, muitíssimo aquém da CGTP. Aí, na Concertação Social, a UGT foi sempre utilizada como uma peça da estratégia do patronato, naturalmente apoiada pelo Governo.

Por isto mesmo, num destes dias, alguém noticiava a perda de dezenas de milhares de sindicalizados pela UGT. E também por isto se compreendem, agora facilmente, as palavras de ontem de Carlos Silva, que conseguiu o extraordinário recorde de ultrapassar, por baixo, o histórico João Proença. Dois concidadãos que, plenamente ao lado do patronato, sempre disseram que a atual maioria parlamentar que suporta o Governo de António Costa não seria o melhor caminho... E quem diz João Proença e Carlos Silva, dirá facilmente Silva Peneda ou Luís Filipe Pereira. Brincando um pouco, estes nossos concidadãos gostam mais do centro político e da Concertação Social que eu de crepes chineses ou de boa doçaria. E se eu gosto de tais manjares!

Os portugueses estão a pagar, a ferro e fogo, o preço do terrível conceito de centro político ter sido posto em prática, e que até conseguiu gerar esse cancro da política portuguesa, que é a Concertação Social. Haja ainda, vá lá, ainda um mínimo de esperança.