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Os Nanterristas

Categoria: Opinioes Publicado em sexta, 01 abril 2016, 00:18

Em tempos de crise e de diminuição de receitas, pois o orçamento municipal recuou 15 anos, a Câmara de Montalegre apresentou-se na Feira de Nanterre (França) com a maior comitiva de sempre. No site da Câmara, a minha única fonte, é possível verificar por texto e imagem que, para lá dos membros do executivo e do “staff” camarário, a CMM convidou desta vez os presidentes da junta. Também alguns ex-presidentes, a quem o povo nada deve, se fizeram rogados e foram incorporados na comitiva. Como se isso não bastasse, também foi servido o maior repasto, desta vez regado com os vinhos de Montalegre, que é um produto que, de insólito, causa espanto e uma careta feia. Para mim, “vinho” e “Montalegre” são um oxímoro, isto é, termos contrários entre si. Bem, mas voltando aos “nanterristas”, ao todo foram algumas dezenas de pessoas. Imagino que tenha sido necessário requisitar uma camionete e imagino também que o cômputo das despesas tenha atingido muitos milhares de euros.

Não concordo com tão grande aparato, para mais em tempos de crise e de carência de toda a ordem. Nas aldeias de Montalegre vive-se uma profunda tristeza, carência, abandono, velhice e sobretudo ignorância. Como em muitas outras coisas de que tenho falado, era preciso mais contenção, mais moderação e discrição, mesmo que os tempos fossem “de vacas gordas”. Só que são de “vacas magras” e a comitiva apenas foi passear à custa do nosso dinheiro.

Vendo e lendo o site da Câmara, sobretudo nos testemunhos dos “nanterristas”, verificamos que o principal propósito foi o convívio e o passeio. Nanterre entrou definitivamente no roteiro das festas da CMM e a festa dura todo o ano. Um dos excursionistas disse: “é a festa”, “viver um fim-de-semana diferente”; outro declarou: “é o convívio com os emigrantes”; outro confirmou: “é convívio”, “é um convívio português”; três deles asseveraram: “é um encontro de pessoas”, “é para rever amigos”, “é um contacto com os emigrantes”; um mais afoito retorquiu: “vi pessoas que já não via nas férias e estou muito satisfeita”; outra “malta” assegurou: “foi um convívio importante”, “é uma família e por isso [a festa] tem de continuar”, “vim rever amigos”, “vim confraternizar”. Finalmente, outro (Embaixador) pediu que houvesse mais festas: “Devia haver mais festas como esta em Nanterre”.

Estimado leitor, se acrescentar ao que fica dito os passeios pela torre Eiffel e outros lugares turísticos, fica provado que Nanterre é uma festa e um passeio e que o município, isto é, o conjunto das pessoas, só tem prejuízo com Nanterre. Quanto ao passeio, a mim não me incomoda, até porque gosto muito de passear, o problema é que é feito à custa do nosso dinheiro.

Também não há Nanterre sem discurso do Presidente. Ai como eu gosto de o ouvir! A sua mensagem foi sintetizada desta forma no site: “levo uma imagem grandiosa e eloquente por ver este espaço cheio de conterrâneos onde a comunidade montalegrense está em maioria”; e ainda: “a nossa comunidade emigrante é a que tem maior representatividade”. O presidente da Junta de Montalegre confirmou: “neste pavilhão a maior participação foi do concelho de Montalegre”.

Repare, amigo leitor, na insensatez das palavras dos dois presidentes de Montalegre: gabam-se de que a comunidade emigrante de Montalegre seja a maior; mostram satisfação e vaidade por os montalegrenses serem aqueles que mais precisaram de emigrar; vêem o abandono da terra pátria como uma graça; acham que emigrar é bom e deve ser fomentado; querem que se emigre, como um ex-primeiro-ministro que todos conhecemos. São políticos para pôr os portugueses fora daqui e lá nisso têm feito um bom trabalho, honra lhes seja feita. Em breve receberão uma condecoração.

Não se pode levar tanta gente a Nanterre sem uma boa justificação. A justificação que foi dada pelo Presidente foi fazer uma “presidência aberta”, mas a verdadeira razão é outra e não vem no site da Câmara: já há muitos anos que Nanterre é lugar de recrutamento e financiamento de votantes. Quem tiver Nanterre do seu lado, ganha. Foi dessa forma, falsificando a democracia, que o anterior presidente ganhou as eleições. Por isso é que a CMM têm grande consideração por Nanterre e não olha a despesas; por isso é que importava ter em Nanterre numerosa comitiva, até porque convém preparar as eleições autárquicas a tempo. Mas pode acontecer que o povo diga “Alto e pára o baile”.

MANUEL RAMOS