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OS PIGMEUS DA POLÍTICA INTERNACIONAL.

Categoria: Opinioes Publicado em segunda, 11 dezembro 2017, 17:15

A recente decisão de Donald Trump, no sentido de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, para aqui vindo a transferir, no futuro, a embaixada norte-americana, não constituiu para mim uma grande surpresa. Não a esperava para este dia recente, mas sabia que tal viria a ser uma realidade, a curto ou médio prazo, na política norte-americana.

Claro está que Donald Trump sabia que as reações do mundo, para lá das palavras frouxas do costume e da correspondente inconsequência, nunca seriam um obstáculo. E mesmo pelo lado da grande comunicação social, a verdade é que Donald sabe bem que a mesma, de um modo muito geral, se limitará a noticiar o facto, nada fazendo que possa mostrar ao mundo o nefando papel nele exercido pelos Estados Unidos.

A propósito desta minha referência, claramente evidente, ainda se mostra útil voltar a expor as palavras de Marcelo Caetano no seu DEPOIMENTO, ao redor do imperativo de pôr em vigor uma lei de imprensa, dada a má imagem transmitida pela censura que vigorava: mandei chamar os banqueiros à minha presença, salientando-lhes o imperativo de adquirirem os jornais, porque precisava de pôr um fim na censura aos mesmos, pondo em vigor uma lei de imprensa. Tudo é claro...

Como se sabe e eu mesmo escrevo antes, as reações dos diversos Estados do Mundo, desde o Primeiro aos que quase deixaram de ser Estados, mostrar-se-iam apenas por meras e inconsequentes palavras. Palavras que logo passam ao esquecimento em um ou dois dias. Uma realidade que tem duas causas. Por um lado, a cabalíssima dependência política dos Estados do Primeiro Mundo em face dos Estados Unidos, com as notáveis exceções da Rússia e da China. E, por outro lado, a realidade que subjaz, por parte dos Estados da Europa em face do caso entre a Palestina e Israel: no fundo, já todos perceberam que o Estado da Palestina tende hoje, assintoticamente, para zero, acabando por ficar-se por algo do tipo de um principado.

Há muito que Israel não para de expandir a sua soberania para o território da Palestina, tal como foi definido pelas Nações Unidas. Não sendo uma política oficial de Israel, a verdade é que tal mecanismo se vem desenvolvendo na base de sucessivos factos consumados, sem que a Comunidade Internacional, ou qualquer Estado do Primeiro Mundo, vão mais longe do que meras palavras de circunstância. Precisamente o que está já a ter lugar, com as coisas a correrem ao ritmo ora definido por Donald Trump e pelos Estados Unidos. Tudo, com todos, se fica por meras palavras inconsequentes.

Assim, da parte do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa o que nos chegou foi que Portugal acompanha a situação relativamente ao Próximo e ao Médio Oriente e Portugal, em especial, tendo já manifestado já a nível de Governo a sua preocupação por gestos que possam ser considerados contraproducentes para o clima de diálogo – mas qual diálogo, pergunto eu?!...–, de entendimento e de paz numa área sensível do globo. Uma frase extraordinária que bem poderia ser galardoada com um qualquer Prémio do Tudo em Nada.

Ao mesmo tempo, Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, disse esperar que o reconhecimento pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital de Israel não desperte nenhuma escalada de tensão e violência – se assim for, como me parece, estar-se-á, afinal, perante um não problema –, salientando que Portugal não pode acompanhar essa decisão. Como se fosse necessário Portugal acompanhar os Estados Unidos nesta sua decisão! E completou: a nossa representação diplomática está em Telavive e temos outra em Ramallah, na Palestina, e entendemos que o estatuto futuro da cidade de Jerusalém é um dos temas a ser discutido e resolvido no quadro mais geral de solução para o conflito israelo-palestiniano. De resto, mesmo com o Estado da Palestina reduzido a uma espécie de principado, lá continuará Portugal a manter a sua representação diplomática em Ramallah. Se esta localidade não tiver, no entretanto, sido também absolvida pela soberania de Israel.

O que este caso mostra, já desde há muito, é que os Estados do Primeiro Mundo vivem completamente dependentes da ação política dos Estados Unidos. Uma realidade que, ao nosso nível, teve um fantástico acréscimo ao longo da nossa III República. Uma realidade que nos surgiu de um modo extremamente impressivo quando Donald Trump referiu sua posição em face da OTAN, mesmo que nunca tenha dito que da mesma sairia.

Dizia muitíssimo bem o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, num dos seus comentários dominicais da TVI, que desde o seu segundo ano de Direito que aprendera que o Direito Internacional Público é o dos mais fortes, ao redor do homicídio de Muamar Kadafi, depois de ter este contado ao mundo que financiara a campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy. E é o que se deu sempre com Israel, que nunca cumpriu as determinações das Nações Unidas, sempre suportada pelos Estados Unidos, hoje com a vida muito facilitada em face dos mil e um pigmeus político dos Estados do Primeiro Mundo. Coitados dos palestinianos…