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Saraivada

Categoria: Opinioes Publicado em sábado, 12 março 2016, 18:26

Antonio saraivaCom o se quê de quase inacreditável, António Saraiva, líder da CIP, salientou em entrevista de ontem que mais vale ter trabalho precário do que desemprego. Respondia deste modo a um estudo recente da CÁRITAS, a cuja luz o emprego precário tem crescido vertiginosamente em Portugal, um dos países da zona da lanterna vermelha neste domínio.

Perante isto, a melhor resposta que António Saraiva encontrou foi a de que mais vale ter trabalho precário do que desemprego. Simplesmente, este é, digamos assim, o primeiro termo de uma sucessão de miséria, porque se é preferível ter trabalho precário a desemprego, também o é ganhar metade do valor atual que nada. E quem diz metade do valor atual, diz um quarto, ou um oitavo, etc.. Desde que o valor seja maior que zero e esteja ligado a um qualquer tipo de trabalho, é, para António Saraiva, sempre melhor.

Significa isto, pois, que uma família com dois descendentes sempre estará melhor numa casa de duas assoalhadas que numa de uma só. E nesta do que sob o tabuleiro de uma ponte, ou aqui que ao ar livre. O que é preciso é ir escapando.

O mais interessante destas inacreditáveis considerações do líder da CIP é que ele, segundo o que lhe pudemos ouvir, chegou a trabalhar no domínio da construção naval, descendo ao porão de um navio com malinha e marmita. Em todo o caso, nesse tempo que então contestaria, António Saraiva viveria muito melhor e com mais segurança na vida que aqueles para quem defende – é o que realmente fez nesta entrevista – o trabalho precário. Sim, porque pouquíssimo e inseguro sempre é melhor que zero.

Estas palavras, se virmos bem, consentem tudo. Consentem, por exemplo, o pagamento por parte de estagiários, porque os mesmos estarão a aprender. Toleram uma estrutura médica nacional para pobres, porque sempre é melhor essa que não ter nenhuma. E consentem os mais diversos sacrifícios humanos sem lógica, porque também os sírios, os iraquianos, os afegãos, etc., vivem como se vê – e como a famigerada União Europeia deixa...–, pelo que sofrendo um pouco menos já é melhor. Ou menos mau.

Desde os meus oito anos que fui assistindo, a distância, a discussões políticas em minha casa. E quando alguém defendia um golpe do povo, apoiado pelos soldados, de pronto a minha mãe referia que isso seria o pior, porque a primeira medida que fariam seria promoverem-se a generais. No fundo, a célebre situação do Dr. Mondinho, que pudemos ver na primeira série, GABRIELA.

Aqui está a razão, caro leitor, para o supremo desejo da Direita pela concertação social: o seu projeto não é melhorar o bem estar e a dignidade de quem trabalha, mas aceitar – e defender – a instalação de baixos salários e de uma legião de gente pobre, que facilmente acabará por aceitar as miseráveis condições oferecidas pelos patrões. Lá pelo meio, com probabilidade da ordem de um por mil, acabará por surgir um outro seguidor desta doutrina saraivista. Uma verdadeira saraivada, esta entrevista.