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Tremendas Baralhadas

Categoria: Opinioes Publicado em quarta, 06 setembro 2017, 22:17

Os nossos noticiários televisivos, ao menos, tornaram-se em autênticas fontes de baralhadas quase sem fim. Todos recordam ainda o caso do avião caído no combate aos incêndios florestais, mas que, afinal, nunca havia caído. E do modo célere como nos brindaram com as declarações de Pedro Passos Coelho sobre suicídios, sem sequer se darem ao luxo de testar tais declarações. Ao fim de todas as contas, felizmente, ninguém se havia suicidado. A verdade é que este rol se tornou imparável, apresentando um ritmo quase diário, mas com variações ao longo do próprio dia. Vejamos alguns exemplos destas baralhadas.

Como teria de dar-se, António Guterres de pronto condenou o novo teste nuclear da Coreia do Norte, reiterando o seu apelo para que o regime ponha fim à sua atividade armamentista. E num ápice o Conselho de Segurança se pôs a trabalhar ao redor do tema, nunca se tendo determinado, no entretanto, em apurar o que se passou com o homicídio de Kadafi, ou com a Guerra do Iraque, operada à revelia do Direito Internacional Público, agora tão brandido. A lei aplica-se ao sabor dos poderosos, tal com em tempos expôs Marcelo Rebelo de Sousa no seu programa dominical na TVI: desde o meu 2º Ano de Direito que aprendi que o Direito Internacional só se aplica aos menos poderosos.

A verdade é que, passando por sobre esta evidentíssima realidade, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa lá nos surgiu ontem a defender o Direito Internacional Público (!) e as decisões das Nações Unidas (!!).

O mesmo se deu com o Governo, através do comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Simplesmente, os portugueses atentos conhecem hoje muitíssimo bem que tudo isto mudaria de posição se, por um qualquer tipo de apontado milagre, os Estados Unidos mudassem agora a sua posição política em face da Coreia do Norte. Basta olhar a História de Israel, e logo se percebe que o Direito Internacional Público é igual para todos, mas só no papel. Por acaso, até no domínio do armamento nuclear.

No meio de tudo isto, a potência da recente bomba, que a Coreia do Norte diz ter sido do tipo termonuclear. Há, aqui, números para todos os gostos: há os que dizem ter sido cinco vezes mais potente que a de Hiroxima; há os que dizem ter sido de uma potência equivalente a cinquenta quilotoneladas de TNT; os que apontam cento e vinte ou cento e quarenta quilotoneladas de TNT, etc..

Acontece, porém, que também a potência da bomba e Hiroxima é citada com valores diversos: vinte quilotonelas, treze quilotoneladas, dezoito quilotoneladas, etc.. O que significa que os valores apontados com certo grau de multiplicidade da bomba de Hiroxima valem pouco ou nada.

Ao mesmo tempo, a grande comunicação social deitou-se a criar a falsa ideia de que o Governo da Coreia do Norte se prepara para atacar os Estados Unidos, e mesmo outros Estados, o que é redondamente falso. Arrisco aqui a aposta de que ninguém acredita que tal possa ser uma realidade. A Coreia do Norte só recorrerá à violência militar, com ou sem armas nucleares ou termonucleares, se for atacada primeiro.

No meio de toda esta impostura montada pelos Estados Unidos e alimentada pela grande comunicação social, foge-se à explicação de que já MacArthur havia publicamente defendido o recurso a armas nucleares, tendo, por isso mesmo, sido liminarmente demitido por Truman, com o cabal apoio de todo o Estado-Maior-Conjunto dos Estados Unidos. Infelizmente, os Estados Unidos desconhecem a linguagem do diálogo, apenas sabendo recorrer, por tudo e por nada, à violência militar, ao golpe de Estado, ao assassínio de líderes, às chapeladas eleitorais, etc..

Saltando para o caso das catástrofes naturais, as nossas televisões andaram quase vinte e quatro horas a contar que tinham já ardido, no arredores de Los Angeles, cerca de vintte e oito mil metros quadrados de floresta!!! Só depois passaram a vinte hectares e, mais recentemente, cinco hectares. Espero, agora, pelos diversos noticiários de hoje e da hora do jantar.

O mesmo se deu com os prejuízos causados pelo Harvey, variando entre 350 mil milhões, 200 mil milhões, 150 mil milhões, etc.. Não têm faltado números naturais aos nossos jornalistas dos canais televisivos.

Por entre nós, e como teria naturalmente de dar-se, aí está a cabalíssima baralhada da distribuição dos montantes angariados para ajudar as vítimas dos incêndios. O que aqui me espanta, é só agora nos surgirem estes ecos de Valdemar Alves, uma vez que a atribuição de verbas a entidades sem um controlo mínimo sempre teria de dar nas dúvidas ora surgidas.

Existindo muitíssimo mais baralhadas, estas são algumas das mais evidentes e fantásticas que nos têm chegado por via dos nossos canais televisivos. Baralhadas que vieram para ficar e continuarem o seu percurso. Uma pândega.