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UMA COINCIDÊNCIA CURIOSA

Categoria: Opinioes Publicado em sexta, 02 março 2018, 11:29

Neste passado fim-de-semana tive em minha casa a minha netinha querida, almoçando connosco e estudando durante as tardes de sábado e domingo a disciplina de História e Geografia de Portugal, ao redor dos reinos de Afonso III, Dinis e Afonso IV. Um fim-de-semana em que se encontrava já vivo o debate sobre a retoma do desenvolvimento do interior do País.

A dado passo, fui encontrar, com a Pequenina, uma nota lateral, sobre um fundo amarelado, onde se referia o seguinte: neste tempo a população portuguesa era de um milhão de habitantes, mais no Norte que no Sul, mais no litoral que no interior. Ou seja, a situação era já da natureza da atual, embora muitíssimo menos aguda.

Acontece que a realidade hoje vivida por Portugal, com a desertificação do seu interior, é muito geral em todos os países. Europeus ou quaisquer outros. E isto tem uma razão perfeitamente natural e lógica: as pessoas não se localizam, por exemplo, nas linhas de cumeadas, antes procuram, de um modo muito geral, as margens dos rios, de preferência a fronteira marítima. É o que se passa com a enormíssima maioria das grandes cidades, portuguesas ou outras.

Ainda hoje existe a ideia de que se pode organizar o desenvolvimento de um país através de um adequado planeamento, mas o cabalíssimo falhanço do caso de Brasília, sobre que os seus autores haviam garantido nunca vir a ter as fantásticas favelas que se conhecem do Rio de Janeiro e da generalidade das grandes cidades sul-americanas, mostrou, mais uma vez, que UMA CIDADE NÃO É UMA ÁRVORE, como tão bem nos expôs Christopher Alexander.

Como qualquer um facilmente perceberá, o nosso interior nunca virá a ser como é o litoral. O que poderá vir a ser – isso sim –, é muitíssimo melhor do que está. Basta que se aproveite, de um modo adequadamente inteligente, o património histórico, gastronómico ou paisagístico que esteja presente. Um tal aproveitamento servirá sempre como polo aglutinador de gente nova e progressivamente mais qualificada. Ou empresas de certas especialidades, que recebam bons incentivos para se localizarem noutras paragens do interior de Portugal. Mas mesmo aqui, sempre a presença de bons cursos de água será tomada como essencial.

De igual modo, seria relativamente simples deitar mão das instituições de ensino superior existentes, ligando-as ao tecido empresarial e ao setor público, e criando-lhes a oportunidade de constituírem estruturas altamente especializadas em setores de grande valor para a economia portuguesa. Mesmo centros virados para a formação de quadros de grande qualidade a nível internacional, seja no âmbito da CPLP, seja no da União Europeia, seja no das relações com a União Africana, etc..

Se tudo o que se diz antes é perfeitamente possível, já será uma catástrofe o desmantelamento de estruturas desde sempre presentes na grande Lisboa, no grande Porto, ou noutros grandes centros populacionais do litoral português. O interior dispõe de grandes potencialidades em matéria turística, mas mesmo aqui é essencial imaginação, trabalho e estudo. Copiar ou desmantelar o litoral é que não servirá para nada.