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Vilarinho de Negrões: da foto bonita à realidade cruel.

Categoria: Opinioes Publicado em sábado, 03 junho 2017, 21:54

Recentemente a Câmara de Montalegre deu destaque a um concurso nacional de nome “Maravilhas de Portugal - Aldeias”, que pretende premiar as sete mais bonitas de Portugal. Não é a primeira vez que um concurso deste tipo existe, nem o primeiro ao qual Montalegre concorre. Que eu saiba, as aldeias de Montalegre foram sempre excluídas no tempo do Estado Novo pela razão maior de não serem salubres e asseadas. Infelizmente a realidade pouco se alterou nos últimos 50 anos.

Montalegre concorreu a cinco modalidades com outras tantas aldeias: Tourém (“Aldeias monumento” e “Aldeias em áreas protegidas”), Fafião (“Aldeias remotas” e “Aldeias em áreas protegidas”), Pitões das Júnias (“Aldeias monumento” e “Aldeias remotas”), Cervos (“Aldeias autênticas”) e Vilarinho de Negrões (“Aldeias ribeirinhas”). Pronunciado o júri de especialistas, as quatro primeiras foram excluídas, tendo ficado a concurso, para uma segunda fase, apenas Vilarinho de Negrões.

Para o destaque de Negrões, estou convicto de que terá pesado a bonita, artística e foto ideal que a CMM forjou. É uma bonita fotografia e, como em muitas outras situações, temos de dar os parabéns ao fotógrafo da Câmara. Nela Negrões é apresentada banhada pelas águas calmas da barragem, na linfa da qual se reflectem as montanhas circundantes e as poucas nuvens daquele dia de sol. O nível anormalmente elevado da cota da água acentua a carácter peninsular da aldeia e torna-a frágil, parecendo que corre o risco de ser alagada. O casario é tosco, mas a cor vermelha dos telhados dá-lhe colorido; o verde dos campos e o azul do céu e das águas trazem à foto a cor e frescura que lhe faltava. Foi de propósito que o fotógrafo quis que ao longe se visse o Larouco.

Esta é a aldeia ao longe, no entanto, se a virmos ao perto, ou seja, se formos lá como eu fui, a situação altera-se do bonito para o horripilante e sentimos a sensação de que tudo é postiço, tudo foi feito para a fotografia e para o “show”, porque a realidade é bem cruel e é essa a que conta. Estou convicto de que os “especialistas” seleccionaram Negrões não porque tivessem em conta a realidade aldeã, mas porque foram enganados pela bonita fotografia.

De facto, a foto é bonita, mas a realidade é cruel. Negrões é, como a grande maioria das aldeias do concelho, uma aldeia sem saneamento. A carência desta infra-estrutura básica, acrescida de haver inúmeras cortes de gado de paredes meias com as casas de habitação e ainda pelo facto de as ruas estarem pejadas de excrementos frescos de gado, aos montículos, tornam-na numa aldeia imunda e não recomendável para viver ou passar fins-de-semana. Há uma corte de vacas em qualquer canto e, à sua porta, virada para o caminho, montões de esterco por já não caber na corte. Tudo é diferente da foto.

Ao contrário da fotografia, a degradação e descaracterização estão por todo o lado. Contei 21 casas esbarrondadas, onde dentro crescem frondosos matagais de sabugueiros e silvas, mais quatro canastros. Uma casa esbarrondada serve de lixeira e o lixo já chega à altura das janelas. As casas remodeladas são ainda as mais horríveis. Aí o mau gosto não teve limites. Numa rua há uma casa melhor, mas está cercada por uma corte e por uma casa esbarrondada. Também há dezenas de alfaias agrícolas abandonadas, umas em eiras, outras pelas ruas, todas elas gastas, não pelo uso, mas pela acção dos elementos. Contei quatro carcaças de automóveis abandonados que, como tudo o resto, desfiguram a aldeia. O nível baixo das águas da barragem torna a paisagem circundante lunar e desértica e amplia por todos os lados a degradação. Como tudo é diferente da foto!

Há mais cães do que pessoas. A maioria das pessoas é idosa e vive dos apoios sociais. Movem-se pela aldeia como “zombies”. A dificuldade daquela gente está estampada no rosto. Quem vive da agricultura vive pobremente, porque a lavoura é tratada como actividade principal e não como complemento a outra atividade. A aldeia tornou-se o refúgio de idosos e deficientes e, de certo modo, de gente excluída da sociedade, que aí encontra refúgio por ter com ela algum tipo de afinidade. Falei com um homem que tem três tractores, mas não tem lavoura para um. Mais adiante um homem cobriu o trator com duas mantas como se a máquina tivesse frio.

Não há asseio e bom gosto e, por isso, não haverá jovem que queira viver num ambiente tão degradado. As novas tecnologias também não trouxeram gente às aldeias nem vão trazer. Repare agora, amigo leitor, que esta é a aldeia mais bonita, pelo que está a imaginar como serão as outras. Não há futuro para as nossas aldeias, muito por culpa do poder local incompetente. Em vez de cumprirem as suas funções de autarcas, divertem-se em festas e jogaram o dinheiro do povo em maus investimentos, a maioria dos quais está agora a apodrecer e outros vão apodrecer quando a Câmara mudar. Amigo leitor, não aconselho uma visita à aldeia de Vilarinho de Negrões. Para não ficar traumatizado como eu fiquei, contente-se com a bonita e ideal fotografia que a CMM exibiu no concurso, mas, por favor, não vá lá.

 

MANUEL RAMOS

Vilarinho de Negrões: da foto bonita à realidade cruel.